Stefany S. Stettler

mestra em Filosofia (PUCSP), especialista em Linguagem Cinematográfica e Audiovisual, Tanatologia, Imunologia e Microbiologia, bacharela e licenciada em Filosofia (UFPR)

O QUE SIGNIFICAM ZUMBIS NAZISTAS?

Zumbis e nazistas não combinam. Isso porque os zumbis têm raízes na colonização haitiana e no vodu, algo que jamais seria tolerado pelos nazi-fascistas. Ainda, as hordas zumbis adotam o mesmo coletivo que “povos nômades, desordeiros, aventureiros, bandidos e invasores”. A disciplina militar e altamente segregacionista nazista jamais aceitaria a beleza das manifestações do povo e credos diferentes daqueles como a Ariosofia, a Teosofia, a Ordem dos Germanos, a Sociedade Thule e a Sociedade Edda. O nazismo esteve profundamente atravessado pela curiosidade com o oculto e como isso poderia ser usado a favor de seu projeto. Sociedades secretas e interesses pela mitologia nórdica eram comuns. Mas os nazistas aceitariam se beneficiar de uma “tecnologia” criada por oprimidos negros?

Os filmes de zumbis nazistas são muito mais complexos do que a simples mensagem de que o fascismo sempre volta. Sim, o nazi-fascismo nunca morre, mas ele vencerá a batalha final? De qual forma isso irá acontecer e como podemos evitar? Se tem uma mensagem que eu prefiro àquela outra é que o nazi-fascismo morre eventualmente, basta-lhe um tiro na cabeça. Aim for the head.

Dra. Claire E. Aubin fala que os filmes de zumbis nazistas, ou qualquer filme retratando o nazismo não deve promover uma redenção dos supremacistas, o que ocorre em Outpost (2008) e Dead Snow (2009). No primeiro, o filme termina com uma legião de zumbis nazistas – do tipo que não morre com tiros na cabeça – contra um punhado de sobreviventes. Já no segundo, o único sobrevivente consegue entregar a caixa do tesouro que levantou os nazistas, mas esquece uma moeda em seu bolso, o que acarreta em sua morte na mão dos mortos-vivos.

Um exemplo de filme que não promove a redenção – com ressalvas – na representação dos nazi-fascistas é Revenge of the Zombies (1943). Vale lembrar que filmes do início da década de 40, ainda que em partes escrachem a segregação racial estadounidense, por outras, mantêm certos tropos como aquele citado por Coleman (2016), do “negrinho-assustado”. Sobre essa posição contraditória, Aimé Césaire escreve:

As pessoas ficam surpresas, tornam-se indignadas. Dizem: « Que estranho! Mas não importa – é nazismo, vai passar! » E elas esperam, e têm esperança; e escondem a verdade de si mesmas, que é barbárie, mas a barbárie suprema, a barbárie coroante que resume todas as barbáries diárias; que é nazismo, sim, mas que antes de serem suas vítimas, foram seus cúmplices; que toleraram o nazismo antes que fosse infligido a eles, que o absolveram, fecharam os olhos para ele, o legitimaram, porque, até então, tinha sido aplicado apenas a povos não europeus; que cultivaram esse nazismo, que são responsáveis por ele, e que, antes de engolir toda a civilização ocidental e cristã em suas águas avermelhadas, ele escorre, infiltra-se e goteja de cada fenda. (CÉSAIRE, 1972, s.n.p.)

Ainda que o cientista nazista do filme seja confrontado pelos seus zumbis no final do filme, a desumanização acontece sobre os personagens negros, em especial Jeff, interpretado por Mantan Moreland, que além do tropo ofensivo atribuido a ele, é desumanizado durante o filme todo.

O interessante de filmes desse gênero, principalmente aqueles da primeira fase pré-1968, é que os zumbis precisam de um mestre, assim como os nazistas tinham o seu. Mas é em Dead Snow (2009) que a lógica é subvertida e o mestre dos zumbis nazistas é uma caixa de tesouro. Nesse sentido, o nazi-fascismo é cooptado pelo capitalismo, em uma alegoria pouco sofisticada.

Como escreve meu amigo Euller, em sua crítica do filme Zona de Interesse (2023):

Dito isso, tenho um ideal no cinema de que não há a possibilidade de um filme sobre o horror da Segunda Guerra Mundial e do horror do nazismo sem, de fato, expor que aquilo ali foi um momento de horror. Não existe para mim a possibilidade de um filme sobre o assunto humanizar ou, ao menos, buscar uma aproximação psicológica com os carrascos e responsáveis por tais atos (FELIX, 2024).

Neste quesito, acredito que a pior representação de zumbis nazistas é a de Dead Snow (2009). Isso porque o filme tem um quê de graça desnecessário para representar figuras tão maléficas. Isso funciona para eliminar a seriedade com que acredito que deve ser tratada qualquer representação do nazismo. Para piorar, o filme coloca os zumbis nazistas como vitoriosos, que conseguem matar o último sobrevivente.

Eu penso que os zumbis são figuras revolucionárias. É uma alegoria de classe sofisticada. Também penso que a figura do zumbi pode humanizar ou desumanizar. Por um lado, são extremamente matáveis – como no modo zumbi do jogo Call of Duty: Black Ops II (2012) – e sendo zumbis nazistas, são duplamente matáveis – como no modo zumbi nazista de Call of Duty: World at War (2008) e Call of Duty: WWII (2017). Mas por outro, para se tornar um zumbi, é necessário ser humano antes. Isso confere aos zumbis, ainda que dependa em partes do universo do qual se trata, indubitável humanidade. Nesse sentido, sou contra a existência de zumbis nazistas: o zumbi é uma figura dos povos, dos oprimidos, dos rebeldes e dos revolucionários e não deve se misturar com a escória supremacista.

REFERÊNCIAS

CÉSAIRE, Aimé. Discourse on Colonialism. Nova Iorque e Londres: Monthly Review Press, 1972.

COLEMAN, Robin. Horror Noire: A Representação Negra no Cinema de Horror. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2019.

DEAD Snow. Dirigido por Tommy Wirkola. Produzido por Tomas Evjen e Harald Zwart. Noruega, 2009 (92 min.).

FELIX, Euller. Crítica de Zona de Interesse (2023). Dialéticas da Imagem. Disponível em: https://dialeticasdaimagem.com.br/2024/02/24/zona-de-interesse/. Acesso em: 26 de fevereiro de 2024.

MEINERZ, Marcos Eduardo. “Hitler me disse”: considerações sobre a relação do nazismo com crenças ocultistas ao longo do século XX. Espaço Plural, n. 38, 2023. p. 01-34.

OUTPOST. Dirigido por Steve Barker. Produzido por Arabella Croft e Kieran Parker. Grã-Bretanha, 2008 (90 min.).

REVENGE of the Zombies. Dirigido por Steve Sekely. Produzido por Lindsley Parsons. Estados Unidos, 1943 (69 min.).

SHOCK Waves. Dirigido por Ken Wiederhorn. Produzido por Reuben Trane. Estados Unidos, 1977 (86 min.).

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