Stefany S. Stettler

mestra em Filosofia (PUCSP), especialista em Linguagem Cinematográfica e Audiovisual, Tanatologia, Imunologia e Microbiologia, bacharela e licenciada em Filosofia (UFPR)

BREAKTHROUGHS TERAPÊUTICOS (AND ZOMBIES!)

Sábado eu fui conhecer o primeiro spa de privação sensorial de Curitiba, junto com a minha amiga Ana Vitória. Era uma curiosidade de ambas há muito tempo e quando finalmente vimos que essa opção seria inaugurada na cidade, marcamos horário. 15h e 16:30, no sábado entre a Sexta Santa e a Páscoa.

O espaço fica em uma casinha antiga no limite do Batel, um bairro daqui. A garagem e o porão da casa foram transformados num espaço demasiado moderno e iluminado para os meus sentidos neurodivertidos, mas muito bonitinho. Ana estava mais ansiosa, tremendo, então ela foi no horário das 15h. Entre um cigarro e outro, eu a aguardei e ouvi o meu album favorito, o Take me Back to Eden, da banda Sleep Token, pensando como seria maravilhoso poder ouvi-lo dentro da cabine.

Logo depois, fui eu. A recepcionista nos leva a uma sala climatizada, com um bom chuveiro, produtos de higiene, toalhas e a cabine, que mais se parece com uma cápsula de crioconservação espacial, toda iluminada por dentro. A recepcionista nos apresenta os botões internos da gerigonça, um de pânico, que toca direto na recepção, e outro para controlar as luzes: brancas, coloridas ou desligadas.

Tomei a ducha mandatória pré-sessão para retirar protetor solar, desodorante, perfume, enfim, tudo que pudesse contaminar a água da cabine, já que o processo de limpeza é dificultado pelos 500kg de sal que temperam a água. Entrei na cabine, fechei a porta/tampa atrás. A água fica numa temperatura agradável (embora Ana tenha achado por vezes a água quente demais) e é mais fácil sentar no chão da cabine do que eu imaginava. Logo começa a música que sinaliza o início da sessão: são 10min. de música, 45min. de silêncio e, ao final, mais 5min. de música para finalizar.

Eu estava dividida entre realizar a sessão com a luz acesa e com a luz apagada, principalmente pelo medo de entrar em pânico e ter uma crise. Mas eu estava lá, estava confiante e a sessão foi cara, então pensei « uma vez no inferno, abrace o capeta ». Apaguei a luz. Um tempo de habituação depois, senti que algo me incomodava, mas eu não sabia identificar o que era. Depois, percebi: o barulho da respiração e do batimento cardíaco me impossibilitava de estar em completa privação sensorial. Pensei « será que só vou descansar mesmo quando morrer? ».

Aí começa o breakthrough de elaboração, it goes like this: « Nossa, será que eu tenho inveja dos zumbis que eu estudo? Porque eles estão descansando, sem deixar de viver? Ou vivendo sem deixar de descansar? ». Mas aí outro movimento me acessou (ou foi acessado?): « A minha vida toda foi morte. Meu tio, que morreu um ano antes de eu nascer e cujo espírito, minha mãe jura de pé juntos, me cuidava quando criança. Meu pai, que quis me abortar, mesmo sem consentimento da minha mãe. Meu pai (ele denovo), que ameaçava se matar com um tiro na cabeça na minha frente. Eu, adolescente neurodivergente não diagnosticada, sofrendo bullying e pensando todo dia em morrer. Minha avó, de quem ajudei a cuidar nos meses finais e vi definhando na minha frente. Meus clientes mortos por batidas, voltando bêbados da balada, onde eu havia ajudado a embebedá-los… »

E, bom, talvez seja por isso que eu decidi estudar zumbis? Porque no fundo (e no vocabulário freudiano), eu sublimei toda essa morte e todos os meus pensamentos suicidas em uma pesquisa que me dá vontade de viver? Antes dos zumbis, eu não tinha planos a longo prazo, eu só fazia as coisas. Primeiro porque eu já estava na hora extra (já que não me matei quando era mais jovem) e segundo porque eu não tinha vontade de continuar vivendo. Hoje, os meus planos a curto-prazo existem para engendrar planos a médio prazo, que por sua vez engendram planos a longo/longuíssimo prazo.

Eu sei que isso tudo é bem clichê: ter breakthrough terapêutico na cabine de privação sensorial, estudar morte pra ter vontade de viver, bla bla bla. E eu odeio isso, de verdade. O breakthrough não poderia ter acontecido 4h da manhã, comigo em pé, vestindo pijamas que jamais outro ser humano presenciará, comendo pão gelado com maionese vencida e coca cola zero quente? Não poderia ser que eu estudo zumbis, sei lá, porque eu já vi todos os filmes de zumbis existentes e queria falar de algo que conheço bem?

Essa poderia ser a justificativa da minha dissertação, mas vai tentar fazer ozomi entender que pesquisa é, sim, autobiográfica.

Posted in , ,

Laisser un commentaire