[texto apresentado na minha banca de defesa da dissertação de mestrado]
No começo desse ano, eu tive a oportunidade de experienciar pela primeira vez uma câmara de privação sensorial. Sempre tive curiosidade para saber como a minha mente funcionaria sem qualquer estímulo externo, pois geralmente sou extremamente sensível a eles. Quando entramos para a sessão, primeiro devemos tomar uma ducha para retirar suor, maquiagem, protetor solar e fuligem da rua. Em seguida, entramos em uma cabine, facilmente saída de um filme de ficção científica espacial: uma banheira com tampa, luzes internas e aproximadamente 500 quilos de sal Epson para 250 litros de água. A sessão começa, então, oficialmente: deitamos na água, que suporta o peso do corpo em flutuação, e uma música com fortes graves toca por 10 minutos, seguidos de 45 minutos de silêncio e por último, para sinalizar o fim da sessão, mais 5 minutos de música. As luzes são controladas internamente: é possível escolher a cor, o padrão ou ainda desligá-las.
Eu escolhi desligá-las. Considerei mantê-las acesas pois estava com medo de entrar em pânico e precisar acionar o botão de emergência, algo que consideraria um pouco humilhante para uma primeira experiência que eu teria intenção de repetir, ainda mais por um medo bobo do escuro, que sempre tive. O lapso de coragem veio, incentivado pelo custo monetário da situação, e decidi aproveitar a vivência em plena privação sensorial – ou foi o que eu pensei. Me percebi incomodada – não saberia dizer em que ponto, já que não é possível monitorar o tempo – e demorei um pouco para entender o motivo: a minha respiração e meus batimentos cardíacos interrompiam teimosamente minha paz. A constatação foi seguida de uma risada alta – ainda bem que eu estava confinada na cabine de criossuspensão de Alien, o Oitavo Passageiro (1979) – e a indagação “será que eu só vou descansar quando morrer?” me escapou. Isso é engraçado, primeiro porque eu sou a inimiga número um do descanso; segundo porque eu passei a adolescência e vida jovem inteira lidando com uma ideação suicida causada por uma infância traumática, uma experiência escolar sofrível e uma autoconfiança física e intelectual abissal; e terceiro… bem, porque é verdade, não é? O famoso descanso eterno. Saí relaxadíssima da sessão de privação sensorial, mas decidi levar essa anedota para a análise.
Naquela semana, sob o habilidoso manejo da minha analista, consegui elaborar melhor. Esse processo passou, é claro, pela ideação suicida, pela guerra ao descanso, pela infância traumática e adolescência suicida, mas desembocou na minha pesquisa. Percebi ali que minha pulsão de morte foi abrandada quando eu comecei a cursar Filosofia, aos 27 anos, e sumiu por completo na pandemia de COVID-19. Por muito tempo, eu acreditei que essa mudança tivesse sido causada pelo isolamento social, porque sem pessoas próximas para servirem de auto admoestações por comparações infindáveis, era mais suportável viver sendo eu; mas foi na pandemia também que comecei a desenvolver minha pesquisa, essa cujo resultado parcial apresento hoje, estudando zumbis. Foi por causa dela que pude conceber planejamentos a médio e longo prazo, já que antes, todo dia poderia ser o último e eu não esperava estar viva dali a cinco anos. Mais ainda: a paz eterna e a ideação suicida foram sublimadas na figura do zumbi: um ser que morreu mas ainda trabalha, que morreu e teve sua paz eterna mas não morreu e encontra outra coisa para fazer, nem que seja predar a espécie humana.
Dessa ideia, de um lado, surge o teor estilístico dessa dissertação e também o título: “um exercício de antiprodução”. De outro, a minha própria vivência nessa cidade, nessa universidade e nesse Programa de Pós-Graduação. E aqui, já imagino que todos sabem do que vou falar. Eu mencionei a minha autoestima abissal, que me acompanhou, essa sim, a vida toda. O sentimento de desalinhamento, desmerecimento e impostura é quase inato, para mim. Sofri bullying em todas as etapas escolares, inclusive na minha primeira graduação e desde então, venho tentando camuflar essa aura de despertencimento, que é farejável pelo inimigo. A ilusão de efetividade dessa técnica foi desfeita em um processo que culminou na equivalência elaborada por um professor entre presidiários e minha aparência, temperado com desqualificações intelectuais e metodológicas. “Realmente, eu não pertenço”, pensei. Mas dessa vez, foi diferente – minha analista disse que Lacan iria me adorar. Para além da justificada indignação, não foi uma sensação de fracasso ou impotência que se seguiu após o choque inicial, como eu acredito que era o objetivo. Eu tentei me esconder, me mesclar e fui farejada como uma presa justamente porque tentei me disfarçar. Então, que eu deixasse de tentar: não deixaria mais de fazer as coisas que gostaria porque isso me destacaria, e que se fosse para ser alvo em uma turma de trinta pessoas de qualquer forma, que eu, pelo menos, facilitasse o trabalho do atirador – sempre fui muito benevolente.
Na pós-graduação lato sensu em Imunologia e Microbiologia que estou finalizando – eu não disse? Inimiga número um do descanso –, aprendi que existem infecções abortivas ou produtivas. Nas primeiras, o vírus não se replica ou não se replica completamente, e por isso não gera novos virions – a estrutura viral completa que pode infectar novas células. Nas segundas, o vírus se replica completamente, gerando virions com potencial de sequestrar novas células. Nessa metáfora, eu sou o vírus e o status quo acadêmico é o organismo que estou invadindo. Talvez seja arrogância minha, mas eu prometo que a linha de raciocínio é inspirada. As células utilizam Receptores de Reconhecimento de Padrões para detectar patógenos e liberam interferons para alertar o organismo sobre a invasão. Bem, eu poderia ser uma infecção abortiva, se aquele episódio resultasse na minha desistência – como sim, quase fez. Mas também não sou uma infecção produtiva, pois não acho que a conclusão dessa etapa, produzindo um vírion mestre – risos – infectaria mais células. Antiprodutiva, então.
Eu sempre faço questão de seguir os ritos, de respeitar formatações, de escrever intermináveis seções de metodologia, mesmo as considerando inúteis. Eu conheço a ABNT de cima a baixo e gosto muito, inclusive. É assim que os vírus se replicam: hackeiam a máquina de produção do genoma celular para produzir o seu próprio. É nesse processo que ocorrem as mutações, a partir da transcriptase reversa, nos retrovírus, de algumas enzimas celulares e da própria ação do sistema imunológico, que força a seleção de variantes de escape. Gosto muito do processo de transcriptase reversa, porque também é uma antiprodução. E bem, os linfócitos T e as imunoglobulinas podem acabar atacando a si mesmos, gerando uma condição autoimune. Entre tentar se manter na norma para não ser identificada e sair da norma para não ser identificada, como ocorre nas mutações virais, eu prefiro a segunda estratégia. E nesse caminho, posso alcançar a satisfação plena – que Freud, suspeito que influenciado por Schopenhauer, não reconhecia – da minha pulsão de morte, até então apenas sublimada nessa pesquisa.
Isso porque os zumbis podem representar, mas não compulsoriamente, a morte. E essa morte pode ser essa literal, na qual o corpo pára de funcionar e a alma – se é que ela existe – morre junto, sobe aos céus ou desce ao inferno. Mas a mutação também não é uma morte? Qual é nossa identidade enquanto humanidade? Eu gosto de pensar no Navio de Teseu: será que com todas as mutações que já sofremos e ainda sofreremos – eu espero! – ainda podemos nos chamar de humanos, de homens? Nesse sentido, ao me identificar com zumbis e vírus, me cedo a permissão de não assumir identidade fixa, nem psicossocial – o zumbi não tem consciência, ou tem? –, nem biológica – os vírus são os organismos com a maior taxa de mutação. Nesse sentido, acredito que o texto busca isso: despir a humanidade de suas camadas, como a metáfora didática da cebola nos estudos de Marx e, se o próprio autor escreve que “a violência é a parteira de toda sociedade velha que está prenhe de uma sociedade nova” – claro, falando sobre o surgimento das sociedade capitalistas, mas acho que eu posso subverter essa expressão –, a violência do apocalipse zumbi pode bem ser a parteira de uma nova humanidade.
Se na primeira parte, o esforço foi direcionado a problematizar os conceitos de vida e morte, sujeito, indivíduo, sujeito de direito e identidade, foi para retirar tudo que tenho como garantido, que me identificam como Stefany. Parece contraditório que eu marque, no texto, a primeira pessoa como forma de me posicionar frente a algumas identidades e argumente para o fim delas, mas acredito que essa discrepância ocorre em dois universos diferentes: um mais concreto, inserido na sociedade e em como ela trata as pessoas, no qual ser a primeira mulher mestra – se tudo der certo – da família é, sim, um feito; e outro, abstrato, no qual para mim, pouco importa se sou mulher, mestra, se tenho nome ou se sou a primeira em qualquer coisa. Sou forçada a operar no primeiro registro, muitas vezes de supetão, e nele marcarei minha voz, embora me sinta muito mais confortável no segundo.
A segunda parte serviu para explorar aspectos mais, como o título mesmo diz, específicos: o que o apocalipse zumbi arranca de nós como os humanos que pensamos ser e nos devolve aos humanos que poderíamos – no sentido de potencial – ser. Se a emergência não fosse mais uma ameaça, se a dessubjetivação fosse uma abertura potencial, se a mutação não fosse anormal e se o nomadismo permitisse outra relação com a terra. É tudo um grande “e se?”, que eu honestamente acredito que é a pergunta que move o mundo, ou, pelo menos, a que me move. Acho que é a pergunta que move também os escritores de ficção científica, a filosofia especulativa e tudo dentro desse espectro, incluindo esse trabalho.
Isso porque a pergunta “e se?” é uma mistura de conhecimento científico e imaginação ficcional. Eu sei como funciona, eu sei para que funciona e eu sei por que funciona, mas e se isso estiver em outro contexto, usado para outra coisa, funcionaria também? Foi assim que descobri que uma panela de pressão pode servir como autoclave para esterilizar materiais. Passamos dos fatos – como, quando, o que e por que – para a curiosidade imaginativa. Esse terreno é muito mais rico, pois passa pelo que poderia ter acontecido, como O homem do castelo alto, de Philip K. Dick, pelo que aconteceu, como Água Turva de Morgana Kretzmann, e pelo que poderá acontecer, como nas mídias de zumbis.
Sobre o texto, eu poderia adiantar muitas críticas possíveis, e certamente não considero esta a versão acabada, definitiva, final_5_agoravai_peloamordedeus.pdf. Pretendo trabalhar nele para além desta defesa, para além do depósito final, até considerá-lo esgotado. Por isso, agradeço críticas minuciosas, críticas gerais, incentivos para mudanças significativas e tudo neste meio. E agora vai ficar um pouco cheesy, porque vou agradecer. Professor Peter, que abriu as portas para me orientar mesmo ressaltando algumas vezes que não entendia nada de zumbis, foi gentil, encorajador, crítico quando necessário e fez um bem indescritível na minha vida que foi me impedir de ler Heidegger. Prof. Jonnefer, que conheci em circunstâncias complicadas e com quem tive um dos melhores cursos dessa jornada na PUC, um daqueles nos quais se sente que realmente aprendeu alguma coisa, conectou ideias, reforçou sinapses… e Prof. Marco, que eu já agradeci tanto que talvez já esteja saturado. Se eu estou aqui hoje, é por grande influência sua, já que antes, a graduação em Filosofia era um passatempo. Comecei a levar a sério porque vislumbrei esse caminho nas suas aulas. Aos meus mestres, aos meus pares, voluntários e involuntários, obrigada.
Não posso prever os dizeres finais da ata desta defesa, mas posso adiantar que independente do resultado, não foi uma jornada unicamente intelectual, essa pesquisa é profundamente autobiográfica e eu tenho orgulho de cada passo dado. Obrigada.

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