Essa questão surgiu recentemente, em uma reunião de orientação do doutorado: afinal, o RoboCop é um zumbi? Ambos os lados têm bons argumentos, e eu pessoalmente ainda não me decidi, mesmo tendo reassistido hoje mesmo para escrever esse texto.
Do lado dos que pensam que o policial Murphy se torna um zumbi, acho que um dos primeiros argumentos que pesam se refere aos tipos de zumbis definidos por Kevin Boom:
Os nove tipos, brevemente definidos, são os seguintes: (1) zombie drone: uma pessoa cuja vontade lhe foi tirada, resultando em obediência servil; (2) zombie ghoul: fusão do zumbi e do ghoul, que perdeu a vontade e se alimenta de carne; (3) tech zombie: pessoas que perderam a vontade pelo uso de algum dispositivo tecnológico; (4) bio zombie: semelhante aos zumbis tecnológicos, exceto que algum elemento biológico, natural ou químico é o meio que rouba a vontade das pessoas; (5) zombie channel: uma pessoa que ressuscitou e alguma outra entidade possuiu sua forma; (6) psychological zombie: pessoa que perdeu a vontade em decorrência de algum condicionamento psicológico; (7) cultural zombie: em geral, refere-se ao tipo de zumbi que localizamos dentro da cultura popular; (8) zombie ghost: não realmente um zumbi, mas alguém que retornou dos mortos com todas ou a maioria de suas faculdades mentais intactas; (9) zombie ruse: truque comum em romances para jovens adultos, onde o “zumbi” acaba não sendo zumbi (2011, p. 08).
Segundo essas definições, o RoboCop seria um zumbi parte do tipo drone, parte do tipo tech: uma pessoa cuja vontade lhe foi tirada, resultando em obediência servil, por meio de dispositivos tecnológicos. E bem, a figura final é, de fato, um arranjo com partes de alguém que agora está morto. Com alguma especulação podemos imaginar o que tem naquela papinha feita exclusivamente para alimentá-lo.
Outro ponto que reforça a noção de que RoboCop é um zumbi seria a fala introdutória de Dick Jones, do alto escalão da empresa OCP para apresentar um protótipo de robô antes de Murphy morrer: « Um policial que não precisa comer ou dormir, com armas e reflexos para usá-las superiores ». Isso ressoa muito com as histórias contadas por William Seabrook em Magic Island, onde zumbis eram escravizados pois não precisavam comer, dormir e ainda, não exigiam pagamento.
Agora, essa história só se sustenta até um ponto específico da história, quando mesmo com a memória apagada, RoboCop tem flashes de memória de sua morte, seus assassinos e de sua família e se rebela para investigar essas lembranças. Ou seja, ele desafia a própria programação e age de acordo com a sua própria vontade. Esse argumento também não se sustenta muito bem sozinho, porque é possível rebater que alguns zumbis têm agência, sim!
Mas é importante lembrar que os zumbis são raramente fenômenos isolados, individuais. Quase sempre se organizam em hordas e bandos, agindo em uníssono, mesmo sem (será?) se comunicarem entre si. Eu sempre me balizo por Re-animator (1922), de H. P. Lovecraft ou mesmo Frankenstein (1931), de Mary Shelley. Na minha humilde concepção, nem os experimentos de Herbet West nem os de Victor Frankenstein configuram zumbificações.
Nesse sentido, ainda é bom manter um certo discernimento para não transformar qualquer ciborgue, morto-vivo, undead ou qualquer coisa do tipo em zumbis. Um dia eu ainda vou tirar um tempo para escrever se Jesus foi um zumbi. Eu escolho ficar com o problema. Mas outra questão que surge é: eu quero que RoboCop seja um zumbi? Ou mesmo, que o filme entre para esse « cânone »? Quero não. Afinal, zumbi ou não, RoboCop é um exemplo clássico de copaganda: tipo de propaganda elaborada para manipular favoravelmente a opinião pública a respeito da polícia.
Desde o início os policiais são apresentados como vítimas do « câncer » que é o crime da cidade de Detroit. Desde o início os policiais querem entrar em greve pela quantidade de colegas mortos. Mesmo RoboCop deixa de matar um dos bandidos porque a sua segunda diretiva é « cumprir a lei », ainda que tenha agredido o criminoso enquanto recitava o Miranda warning. Quer dizer, matar não pode… mas jogar o suspeito parede adentro tá liberado? Hmm… então tá!
Os verdadeiros bandidos são os membros do alto escalão da OCP, sobretudo Dick Jones, que manda matar um de seus colegas por ter inventado uma « solução » (o RoboCop) que não era comercializável. Então é o capitalismo, mas « nem todo » capitalismo, o culpado. Os policiais são « só vítimas » dessa corrupção generalizada, mesmo RoboCop, quando descobrimos que sua quarta diretiva é « qualquer tentativa de prender um funcionário sênior da OCP resulta em desligamento. Tadinho do RoboCop! (rs)
Por mim, podem ficar com esse. Eu não faço questão, não.

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