Stefany S. Stettler

doutoranda em Metafísica (UnB), mestra em Filosofia (PUCSP), especialista em Linguagem Cinematográfica e Audiovisual, Tanatologia, Imunologia e Microbiologia, bacharela e licenciada em Filosofia (UFPR)

  • Quando a educação não é libertadora… o sonho do… zumbi? é se tornar… mestre zumbi?

    A queridíssima Anne Quiangala me indicou há uns tempos atrás esse episódio específico da série Evil (2019-2024) chamado Z is for Zombies. Lila e Alex, duas garotinhas (de novo elas!), começam o episódio assistindo One Cut of the Dead (Plano-Sequência dos Mortos, 2017). Depois de verem um zumbi caminhando no beco entre suas casas, os mortos-vivos começam a tomar conta.

    As duas mocinhas trombam uma noite com o pai de Alex, mas a jovem afirma « aquele não era meu pai… eu olhei em seus olhos e… aquele não era meu pai ». Brandon havia começado a trabalhar em um armazém chamado CongoRun, similar à Amazon e com denúncias similares à Amazon.

    Miss Marie, uma sacerdotisa, consultada por Lila e Alex, as entrega dois vidrinhos… um para Brandon, outro para o mestre zumbi (que até então não sabemos quem é). O primeiro vidrinho é administrado por meio de um macarrão com almôndegas ao pai de Alex, o que parece funcionar, já que o homem acorda atrasado no dia seguinte e é poupado de uma imensa explosão ocorrida no armazém da CongoRun.

    Após o « acidente » e com Brandon já libertado da zumbificação, os funcionários começam a se organizar para a sindicalização dos funcionários. Na reunião, que Alex e Lila vêem do canto da escada, chega Sr. Hamlin, tentando convencer seus empregados a desistir da sindicalização. Nesta brecha de tempo, Alex e Lila agem rápido e colocam a poção em um chiclete do empregador, que logo é expulso da reunião.

    Bom, eu vou ter que contar o final. Se você quiser assistir tudo antes de ler o resto, a série está disponível na Globoplay e também desabada dos caminhões por aí.

    Acontece que a poção destinado ao Sr. Hamlin o fez… ir trabalhar alcoolizado. Ele perdeu o emprego e sua vaga foi ofertada a Brandon, também para afundar a tentativa de sindicalização, encabeçada pelo homem. O pai de Alex aceita o cargo e o jogo vira: uma das últimas cenas é ele comandando, do computador na mesa da sala, os seus antigos colegas.

    Alex e Lila terminam o episódio em silêncio, muito cientes do que aconteceu: « quer terminar aquele filme de zumbis essa noite? » « não ». Sei lá, eu nem tenho palavras, sabe? 10/10.

  • A VOLTA DO POR QUE SÃO SEMPRE AS GAROTINHAS?

    Hoje eu fui prestigiar meu colega e amigo Elias na sua defesa de mestrado, cuja dissertação trata do Racismo Epistêmico nos cursos de filosofia de universidades federais. Em certo momento, sua orientadora, a Profa. Dra. Megg Rayara Gomes de Oliveira (a primeira travesti negra a conquistar o título de doutora no Brasil!), comentou um trecho do texto em que o Elias cita o caso de Ruby Bridges.

    Ela disse que foram vários os casos de garotinhas selecionadas para pôr fim à segragação racial nas escolas dos Estados Unidos, no contexto do fim das leis Jim Crow. A professora então fez uma pergunta que disparou meus neurônios: « Por que são sempre as garotinhas? ».

    No começo dessa semana, eu fiz a mesma pergunta em um post no Instagram, abordando os casos de garotinhas que são antídotos/vacinas para a contaminação zumbi. Ou melhor, garotinhas que são zumbis mas são zumbis simbiontes, como já descrevi em vários lugares.

    Eu fiz, então, o que eu faço sempre. Abri o buscador e digitei « Ruby Bridges ». Descobri que ela foi parte de um movimento muito maior, pensado para dessegregar as escolas estadunidenses. Leona Tate, Gail Etienne, Tessie Prevost (as McDonogh Three); Dorothy Counts; Elizabeth Eckford, Minnijean Brown, Carlotta Walls, Thelma Mothershed, Melba Pattillo, Gloria Ray (as garotas de Little Rock); entre outras garotinhas.

    Não eram apenas as garotinhas, eu entendi. Mas era uma maioria significante de garotas. Mas sempre, sempre! as garotinhas. Isso deu um fôlego para a minha pergunta, aquela do início da semana, que não pretendo responder por completo, mas que avança consideravelmente com essas novas conexões.

    Dorothy Counts caminhando para a escola recém-dessegregada – FOTO: rarehistoricalphotos.com

    Se o sujeito universal pressuposto é homem (adulto!), branco, hétero, altamente e propositalmente isolado no topo do pedestal que construiu para si mesmo, faz todo o sentido do mundo que sejam garotinhas negras a despedaçar essa ilusão de superioridade. Não sem dificuldade, é claro.

    Ruby Bridges do lado de cá e Melanie do lado de lá. A primeira passou no teste feito para que ela não passasse e sofreu diversos boicotes, ameaças e perseguições. A segunda desenvolveu sua subjetividade quando tudo foi desenhado para sobrepujá-la e desafiou os medos de uma sociedade moribunda. As duas demonstraram que o homem branco hermético é insignificante, ruidoso e raivoso quando vê sua exclusividade atacada.

    É óbvio que precisam ser garotinhas. Eu estou com as garotinhas.

  • Ontem eu era católico, hoje eu sou um… ZUMBI?

    Essa questão surgiu recentemente, em uma reunião de orientação do doutorado: afinal, o RoboCop é um zumbi? Ambos os lados têm bons argumentos, e eu pessoalmente ainda não me decidi, mesmo tendo reassistido hoje mesmo para escrever esse texto.

    Do lado dos que pensam que o policial Murphy se torna um zumbi, acho que um dos primeiros argumentos que pesam se refere aos tipos de zumbis definidos por Kevin Boom:

    Os nove tipos, brevemente definidos, são os seguintes: (1) zombie drone: uma pessoa cuja vontade lhe foi tirada, resultando em obediência servil; (2) zombie ghoul: fusão do zumbi e do ghoul, que perdeu a vontade e se alimenta de carne; (3) tech zombie: pessoas que perderam a vontade pelo uso de algum dispositivo tecnológico; (4) bio zombie: semelhante aos zumbis tecnológicos, exceto que algum elemento biológico, natural ou químico é o meio que rouba a vontade das pessoas; (5) zombie channel: uma pessoa que ressuscitou e alguma outra entidade possuiu sua forma; (6) psychological zombie: pessoa que perdeu a vontade em decorrência de algum condicionamento psicológico; (7) cultural zombie: em geral, refere-se ao tipo de zumbi que localizamos dentro da cultura popular; (8) zombie ghost: não realmente um zumbi, mas alguém que retornou dos mortos com todas ou a maioria de suas faculdades mentais intactas; (9) zombie ruse: truque comum em romances para jovens adultos, onde o “zumbi” acaba não sendo zumbi (2011, p. 08).

    Segundo essas definições, o RoboCop seria um zumbi parte do tipo drone, parte do tipo tech: uma pessoa cuja vontade lhe foi tirada, resultando em obediência servil, por meio de dispositivos tecnológicos. E bem, a figura final é, de fato, um arranjo com partes de alguém que agora está morto. Com alguma especulação podemos imaginar o que tem naquela papinha feita exclusivamente para alimentá-lo.

    Outro ponto que reforça a noção de que RoboCop é um zumbi seria a fala introdutória de Dick Jones, do alto escalão da empresa OCP para apresentar um protótipo de robô antes de Murphy morrer: « Um policial que não precisa comer ou dormir, com armas e reflexos para usá-las superiores ». Isso ressoa muito com as histórias contadas por William Seabrook em Magic Island, onde zumbis eram escravizados pois não precisavam comer, dormir e ainda, não exigiam pagamento.

    Agora, essa história só se sustenta até um ponto específico da história, quando mesmo com a memória apagada, RoboCop tem flashes de memória de sua morte, seus assassinos e de sua família e se rebela para investigar essas lembranças. Ou seja, ele desafia a própria programação e age de acordo com a sua própria vontade. Esse argumento também não se sustenta muito bem sozinho, porque é possível rebater que alguns zumbis têm agência, sim!

    Mas é importante lembrar que os zumbis são raramente fenômenos isolados, individuais. Quase sempre se organizam em hordas e bandos, agindo em uníssono, mesmo sem (será?) se comunicarem entre si. Eu sempre me balizo por Re-animator (1922), de H. P. Lovecraft ou mesmo Frankenstein (1931), de Mary Shelley. Na minha humilde concepção, nem os experimentos de Herbet West nem os de Victor Frankenstein configuram zumbificações.

    Nesse sentido, ainda é bom manter um certo discernimento para não transformar qualquer ciborgue, morto-vivo, undead ou qualquer coisa do tipo em zumbis. Um dia eu ainda vou tirar um tempo para escrever se Jesus foi um zumbi. Eu escolho ficar com o problema. Mas outra questão que surge é: eu quero que RoboCop seja um zumbi? Ou mesmo, que o filme entre para esse « cânone »? Quero não. Afinal, zumbi ou não, RoboCop é um exemplo clássico de copaganda: tipo de propaganda elaborada para manipular favoravelmente a opinião pública a respeito da polícia.

    Desde o início os policiais são apresentados como vítimas do « câncer » que é o crime da cidade de Detroit. Desde o início os policiais querem entrar em greve pela quantidade de colegas mortos. Mesmo RoboCop deixa de matar um dos bandidos porque a sua segunda diretiva é « cumprir a lei », ainda que tenha agredido o criminoso enquanto recitava o Miranda warning. Quer dizer, matar não pode… mas jogar o suspeito parede adentro tá liberado? Hmm… então tá!

    Os verdadeiros bandidos são os membros do alto escalão da OCP, sobretudo Dick Jones, que manda matar um de seus colegas por ter inventado uma « solução » (o RoboCop) que não era comercializável. Então é o capitalismo, mas « nem todo » capitalismo, o culpado. Os policiais são « só vítimas » dessa corrupção generalizada, mesmo RoboCop, quando descobrimos que sua quarta diretiva é « qualquer tentativa de prender um funcionário sênior da OCP resulta em desligamento. Tadinho do RoboCop! (rs)

    Por mim, podem ficar com esse. Eu não faço questão, não.

  • dr. strangeimpostor

    Or how I learned to stop worrying and love the feeling of being different

    Se tem uma coisa que eu aprendi na análise é que as coisas sempre retornam, cada vez de uma forma diferente. O eterno retorno, enfim. Na filosofia, não cheguei a investigar essa questão, nem em Nietzsche, nem em Deleuze — embora eles ainda tenham lições valiosas pra me ensinar.

    Semana passada um colega me indicou um livro a partir de uma pergunta direcionada que fiz. Eu reconheci a obra pois era um título que meu orientador da graduação havia me indicado, lá em 2022. Na época, não consegui ler e acabei enterrando essa referência, que ressurgiu agora, no início do doutorado (eu já ia escrever mestrado!)

    Também nesse início de doutorado, notei que as minhas semanas estão parecendo curtas para o tanto de coisas a fazer. Eu tenho um artigo a escrever, tenho meus estudos de metodologia filosófica a fazer, tenho contos a criar. Além disso, tenho meu livro para ajustar após a leitura crítica. Essa semana surgiu também uma revisão inesperada, que eu precisei assumir. Isso tudo no meio de uma ruptura inesperada de um bloco de leitura.

    Isso tudo gerou uma angústia gigante em mim, uma sensação de não pertencimento, de não ser o suficiente e de não merecer estar onde estou. É claro que isso foi amenizado pela amável recepção que tive no grupo de orientação e nas disciplinas do doc de maneira geral.

    Essa recepção calorosa e em especial um comentário de um colega que disse que gostaria de ter feito como eu fiz — um bloco de leitura de base nas férias — soaram estranhos perto de como eu me sentia e o momento de choque, a percepção de que ninguém me via como menos do que eles, bateu de uma maneira diferente.

    Deixou de ser aquele meme « eles não sabem que eu sou um fracasso » e se transformou numa sensação de que estava tudo bem se eu não tivesse as mesmas leituras, ou o mesmo background. E mais: que isso era positivo e interessante para contribuir para as discussões. O CHOQUE.

    Nessa ruptura eu ainda percebi que a minha formação na graduação e no mestrado foram completamente diferentes do que a formação do doutorado será. Na graduação inteira, li, no máximo, 3 livros de filósofos vivos. No mestrado foram 2 — um pouco melhor, considerando as proporções temporais. No doutorado, um livro de 2023 já pode ser considerado velho.

    Não posso dizer se o encanto de ler e discutir com quem pode treplicar enterrou esse sentimento de insuficiência. O que eu posso dizer é que percebi, talvez demasiado tarde, de que leituras e backgrounds diferentes não me tornam menos digna de estar onde estou. E isso, no meu livro, é uma vitória.

  • DEFESA DE MESTRADO, NEUROQUEERNESS, ESQUISITICES

    [texto apresentado na minha banca de defesa da dissertação de mestrado]

    No começo desse ano, eu tive a oportunidade de experienciar pela primeira vez uma câmara de privação sensorial. Sempre tive curiosidade para saber como a minha mente funcionaria sem qualquer estímulo externo, pois geralmente sou extremamente sensível a eles. Quando entramos para a sessão, primeiro devemos tomar uma ducha para retirar suor, maquiagem, protetor solar e fuligem da rua. Em seguida, entramos em uma cabine, facilmente saída de um filme de ficção científica espacial: uma banheira com tampa, luzes internas e aproximadamente 500 quilos de sal Epson para 250 litros de água. A sessão começa, então, oficialmente: deitamos na água, que suporta o peso do corpo em flutuação, e uma música com fortes graves toca por 10 minutos, seguidos de 45 minutos de silêncio e por último, para sinalizar o fim da sessão, mais 5 minutos de música. As luzes são controladas internamente: é possível escolher a cor, o padrão ou ainda desligá-las.

    Eu escolhi desligá-las. Considerei mantê-las acesas pois estava com medo de entrar em pânico e precisar acionar o botão de emergência, algo que consideraria um pouco humilhante para uma primeira experiência que eu teria intenção de repetir, ainda mais por um medo bobo do escuro, que sempre tive. O lapso de coragem veio, incentivado pelo custo monetário da situação, e decidi aproveitar a vivência em plena privação sensorial – ou foi o que eu pensei. Me percebi incomodada – não saberia dizer em que ponto, já que não é possível monitorar o tempo – e demorei um pouco para entender o motivo: a minha respiração e meus batimentos cardíacos interrompiam teimosamente minha paz. A constatação foi seguida de uma risada alta – ainda bem que eu estava confinada na cabine de criossuspensão de Alien, o Oitavo Passageiro (1979) – e a indagação “será que eu só vou descansar quando morrer?” me escapou. Isso é engraçado, primeiro porque eu sou a inimiga número um do descanso; segundo porque eu passei a adolescência e vida jovem inteira lidando com uma ideação suicida causada por uma infância traumática, uma experiência escolar sofrível e uma autoconfiança física e intelectual abissal; e terceiro… bem, porque é verdade, não é? O famoso descanso eterno. Saí relaxadíssima da sessão de privação sensorial, mas decidi levar essa anedota para a análise.

    Naquela semana, sob o habilidoso manejo da minha analista, consegui elaborar melhor. Esse processo passou, é claro, pela ideação suicida, pela guerra ao descanso, pela infância traumática e adolescência suicida, mas desembocou na minha pesquisa. Percebi ali que minha pulsão de morte foi abrandada quando eu comecei a cursar Filosofia, aos 27 anos, e sumiu por completo na pandemia de COVID-19. Por muito tempo, eu acreditei que essa mudança tivesse sido causada pelo isolamento social, porque sem pessoas próximas para servirem de auto admoestações por comparações infindáveis, era mais suportável viver sendo eu; mas foi na pandemia também que comecei a desenvolver minha pesquisa, essa cujo resultado parcial apresento hoje, estudando zumbis. Foi por causa dela que pude conceber planejamentos a médio e longo prazo, já que antes, todo dia poderia ser o último e eu não esperava estar viva dali a cinco anos. Mais ainda: a paz eterna e a ideação suicida foram sublimadas na figura do zumbi: um ser que morreu mas ainda trabalha, que morreu e teve sua paz eterna mas não morreu e encontra outra coisa para fazer, nem que seja predar a espécie humana.

    Dessa ideia, de um lado, surge o teor estilístico dessa dissertação e também o título: “um exercício de antiprodução”. De outro, a minha própria vivência nessa cidade, nessa universidade e nesse Programa de Pós-Graduação. E aqui, já imagino que todos sabem do que vou falar. Eu mencionei a minha autoestima abissal, que me acompanhou, essa sim, a vida toda. O sentimento de desalinhamento, desmerecimento e impostura é quase inato, para mim. Sofri bullying em todas as etapas escolares, inclusive na minha primeira graduação e desde então, venho tentando camuflar essa aura de despertencimento, que é farejável pelo inimigo. A ilusão de efetividade dessa técnica foi desfeita em um processo que culminou na equivalência elaborada por um professor entre presidiários e minha aparência, temperado com desqualificações intelectuais e metodológicas. “Realmente, eu não pertenço”, pensei. Mas dessa vez, foi diferente – minha analista disse que Lacan iria me adorar. Para além da justificada indignação, não foi uma sensação de fracasso ou impotência que se seguiu após o choque inicial, como eu acredito que era o objetivo. Eu tentei me esconder, me mesclar e fui farejada como uma presa justamente porque tentei me disfarçar. Então, que eu deixasse de tentar: não deixaria mais de fazer as coisas que gostaria porque isso me destacaria, e que se fosse para ser alvo em uma turma de trinta pessoas de qualquer forma, que eu, pelo menos, facilitasse o trabalho do atirador – sempre fui muito benevolente.

    Na pós-graduação lato sensu em Imunologia e Microbiologia que estou finalizando – eu não disse? Inimiga número um do descanso –, aprendi que existem infecções abortivas ou produtivas. Nas primeiras, o vírus não se replica ou não se replica completamente, e por isso não gera novos virions – a estrutura viral completa que pode infectar novas células. Nas segundas, o vírus se replica completamente, gerando virions com potencial de sequestrar novas células. Nessa metáfora, eu sou o vírus e o status quo acadêmico é o organismo que estou invadindo. Talvez seja arrogância minha, mas eu prometo que a linha de raciocínio é inspirada. As células utilizam Receptores de Reconhecimento de Padrões para detectar patógenos e liberam interferons para alertar o organismo sobre a invasão. Bem, eu poderia ser uma infecção abortiva, se aquele episódio resultasse na minha desistência – como sim, quase fez. Mas também não sou uma infecção produtiva, pois não acho que a conclusão dessa etapa, produzindo um vírion mestre – risos – infectaria mais células. Antiprodutiva, então.

    Eu sempre faço questão de seguir os ritos, de respeitar formatações, de escrever intermináveis seções de metodologia, mesmo as considerando inúteis. Eu conheço a ABNT de cima a baixo e gosto muito, inclusive. É assim que os vírus se replicam: hackeiam a máquina de produção do genoma celular para produzir o seu próprio. É nesse processo que ocorrem as mutações, a partir da transcriptase reversa, nos retrovírus, de algumas enzimas celulares e da própria ação do sistema imunológico, que força a seleção de variantes de escape. Gosto muito do processo de transcriptase reversa, porque também é uma antiprodução. E bem, os linfócitos T e as imunoglobulinas podem acabar atacando a si mesmos, gerando uma condição autoimune. Entre tentar se manter na norma para não ser identificada e sair da norma para não ser identificada, como ocorre nas mutações virais, eu prefiro a segunda estratégia. E nesse caminho, posso alcançar a satisfação plena – que Freud, suspeito que influenciado por Schopenhauer, não reconhecia – da minha pulsão de morte, até então apenas sublimada nessa pesquisa.

    Isso porque os zumbis podem representar, mas não compulsoriamente, a morte. E essa morte pode ser essa literal, na qual o corpo pára de funcionar e a alma – se é que ela existe – morre junto, sobe aos céus ou desce ao inferno. Mas a mutação também não é uma morte? Qual é nossa identidade enquanto humanidade? Eu gosto de pensar no Navio de Teseu: será que com todas as mutações que já sofremos e ainda sofreremos – eu espero! – ainda podemos nos chamar de humanos, de homens? Nesse sentido, ao me identificar com zumbis e vírus, me cedo a permissão de não assumir identidade fixa, nem psicossocial – o zumbi não tem consciência, ou tem? –, nem biológica – os vírus são os organismos com a maior taxa de mutação. Nesse sentido, acredito que o texto busca isso: despir a humanidade de suas camadas, como a metáfora didática da cebola nos estudos de Marx e, se o próprio autor escreve que “a violência é a parteira de toda sociedade velha que está prenhe de uma sociedade nova” – claro, falando sobre o surgimento das sociedade capitalistas, mas acho que eu posso subverter essa expressão –, a violência do apocalipse zumbi pode bem ser a parteira de uma nova humanidade.

    Se na primeira parte, o esforço foi direcionado a problematizar os conceitos de vida e morte, sujeito, indivíduo, sujeito de direito e identidade, foi para retirar tudo que tenho como garantido, que me identificam como Stefany. Parece contraditório que eu marque, no texto, a primeira pessoa como forma de me posicionar frente a algumas identidades e argumente para o fim delas, mas acredito que essa discrepância ocorre em dois universos diferentes: um mais concreto, inserido na sociedade e em como ela trata as pessoas, no qual ser a primeira mulher mestra – se tudo der certo – da família é, sim, um feito; e outro, abstrato, no qual para mim, pouco importa se sou mulher, mestra, se tenho nome ou se sou a primeira em qualquer coisa. Sou forçada a operar no primeiro registro, muitas vezes de supetão, e nele marcarei minha voz, embora me sinta muito mais confortável no segundo.

    A segunda parte serviu para explorar aspectos mais, como o título mesmo diz, específicos: o que o apocalipse zumbi arranca de nós como os humanos que pensamos ser e nos devolve aos humanos que poderíamos – no sentido de potencial – ser. Se a emergência não fosse mais uma ameaça, se a dessubjetivação fosse uma abertura potencial, se a mutação não fosse anormal e se o nomadismo permitisse outra relação com a terra. É tudo um grande “e se?”, que eu honestamente acredito que é a pergunta que move o mundo, ou, pelo menos, a que me move. Acho que é a pergunta que move também os escritores de ficção científica, a filosofia especulativa e tudo dentro desse espectro, incluindo esse trabalho.

    Isso porque a pergunta “e se?” é uma mistura de conhecimento científico e imaginação ficcional. Eu sei como funciona, eu sei para que funciona e eu sei por que funciona, mas e se isso estiver em outro contexto, usado para outra coisa, funcionaria também? Foi assim que descobri que uma panela de pressão pode servir como autoclave para esterilizar materiais. Passamos dos fatos – como, quando, o que e por que – para a curiosidade imaginativa. Esse terreno é muito mais rico, pois passa pelo que poderia ter acontecido, como O homem do castelo alto, de Philip K. Dick, pelo que aconteceu, como Água Turva de Morgana Kretzmann, e pelo que poderá acontecer, como nas mídias de zumbis.

    Sobre o texto, eu poderia adiantar muitas críticas possíveis, e certamente não considero esta a versão acabada, definitiva, final_5_agoravai_peloamordedeus.pdf. Pretendo trabalhar nele para além desta defesa, para além do depósito final, até considerá-lo esgotado. Por isso, agradeço críticas minuciosas, críticas gerais, incentivos para mudanças significativas e tudo neste meio. E agora vai ficar um pouco cheesy, porque vou agradecer. Professor Peter, que abriu as portas para me orientar mesmo ressaltando algumas vezes que não entendia nada de zumbis, foi gentil, encorajador, crítico quando necessário e fez um bem indescritível na minha vida que foi me impedir de ler Heidegger. Prof. Jonnefer, que conheci em circunstâncias complicadas e com quem tive um dos melhores cursos dessa jornada na PUC, um daqueles nos quais se sente que realmente aprendeu alguma coisa, conectou ideias, reforçou sinapses… e Prof. Marco, que eu já agradeci tanto que talvez já esteja saturado. Se eu estou aqui hoje, é por grande influência sua, já que antes, a graduação em Filosofia era um passatempo. Comecei a levar a sério porque vislumbrei esse caminho nas suas aulas. Aos meus mestres, aos meus pares, voluntários e involuntários, obrigada.

    Não posso prever os dizeres finais da ata desta defesa, mas posso adiantar que independente do resultado, não foi uma jornada unicamente intelectual, essa pesquisa é profundamente autobiográfica e eu tenho orgulho de cada passo dado. Obrigada.

  • ZUMBIS INCESTUOSOS, FREUD, ETC.

    Assisti Burial Ground (1981) ontem. Eu amo os zumbis italianos, de paixão. E eu estava precisando de uma dose forte de gore: nesse filme, o primeiro zumbi aparece com menos de 4 minutos rodados. Amo, me diverti horrores. Maas, como por aqui nenhum filme de zumbi é só diversão, o filme também aprofunda uma discussão que trouxe pela primeira vez na minha monografia (e depois no meu livro, comprem meu livro!): os filmes de zumbis como sublimação do desejo incestuoso.

    Lá em Night of the Living Dead, o Romero bota uma família colarinho branco « chefiada » (muitas aspas) por Harry, um detestável equivocado. Blablabla, disputa territorial, afirmação de masculinidade, mortes, zumbis, mulheres catatônicas. No clímax do filme, Ben atira em Harry, que tentava roubar a arma. O homem cai escada abaixo no porão, onde sua filha, doente e contaminada, deita inconsciente sobre uma mesa. Helen, a mãe, fica no térreo ajudando Ben a conter os zumbis, prestes a invadir a casa. Quando a esposa consegue acessar novamente o porão, encontra Karen, a menina, comendo partes do cadáver de Harry (bem feito!).

    Alguns pesquisadores traçam um paralelo com a realização do desejo incestuoso, à lá Freud. Em Totem e Tabu, o psicanalista posiciona o incesto como uma das proibições originais ao ser humano. Mas em Burial Ground, isso fica límpido. Michael, um garotinho (interpretado por um ator com nanismo, Pietro Barzocchini) tem um desejo sexual por sua mãe, em determinada cena, avança sexualmente em sua mãe durante um abraço.

    Eu confesso que fiquei pensando que a criança era estranha desde o começo, mas não estava claro que era um ator adulto (desculpa, gente) e eu fiquei assim: « não pode ser que colocaram uma criança pra fazer essa cena, não pode ser! ». Tive até que parar o filme pra ir pesquisar, porque eu estava rejeitando completamente a obra por isso.

    Logo depois, ele morre (SPOILER: o filme tem 45 anos!). Aí tem monge zumbi, outra mulher catatônica (que criativo…), um homem BURRO de dar dó, e o Michael volta no final transformado. A mãe, completamente delulu, oferece o peito pra criança-adulto-morto-vivo num discurso meio nojentinho, totalmente tabu e ela morre porque o filho zumbi arranca o seio dela no dente. Isso sim, eu diria, é a representação definitiva da realização do desejo incestuoso nos filmes de zumbis. Só a cabeça completamente depravada dos italianos pra conceber isso. De verdade. Mas eu tava torcendo pra ser esse o desfecho também, o que me faz, então, tão depravada quanto? Ainda comemorei bastante os monges zumbis, até porque estou investigando as simbologias cristãs nos filmes de zumbis.

    Não tenho muitas reflexões sobre essa cena, mas vou investigar. Segue a pesquisa!

  • BREAKTHROUGHS TERAPÊUTICOS (AND ZOMBIES!)

    Sábado eu fui conhecer o primeiro spa de privação sensorial de Curitiba, junto com a minha amiga Ana Vitória. Era uma curiosidade de ambas há muito tempo e quando finalmente vimos que essa opção seria inaugurada na cidade, marcamos horário. 15h e 16:30, no sábado entre a Sexta Santa e a Páscoa.

    O espaço fica em uma casinha antiga no limite do Batel, um bairro daqui. A garagem e o porão da casa foram transformados num espaço demasiado moderno e iluminado para os meus sentidos neurodivertidos, mas muito bonitinho. Ana estava mais ansiosa, tremendo, então ela foi no horário das 15h. Entre um cigarro e outro, eu a aguardei e ouvi o meu album favorito, o Take me Back to Eden, da banda Sleep Token, pensando como seria maravilhoso poder ouvi-lo dentro da cabine.

    Logo depois, fui eu. A recepcionista nos leva a uma sala climatizada, com um bom chuveiro, produtos de higiene, toalhas e a cabine, que mais se parece com uma cápsula de crioconservação espacial, toda iluminada por dentro. A recepcionista nos apresenta os botões internos da gerigonça, um de pânico, que toca direto na recepção, e outro para controlar as luzes: brancas, coloridas ou desligadas.

    Tomei a ducha mandatória pré-sessão para retirar protetor solar, desodorante, perfume, enfim, tudo que pudesse contaminar a água da cabine, já que o processo de limpeza é dificultado pelos 500kg de sal que temperam a água. Entrei na cabine, fechei a porta/tampa atrás. A água fica numa temperatura agradável (embora Ana tenha achado por vezes a água quente demais) e é mais fácil sentar no chão da cabine do que eu imaginava. Logo começa a música que sinaliza o início da sessão: são 10min. de música, 45min. de silêncio e, ao final, mais 5min. de música para finalizar.

    Eu estava dividida entre realizar a sessão com a luz acesa e com a luz apagada, principalmente pelo medo de entrar em pânico e ter uma crise. Mas eu estava lá, estava confiante e a sessão foi cara, então pensei « uma vez no inferno, abrace o capeta ». Apaguei a luz. Um tempo de habituação depois, senti que algo me incomodava, mas eu não sabia identificar o que era. Depois, percebi: o barulho da respiração e do batimento cardíaco me impossibilitava de estar em completa privação sensorial. Pensei « será que só vou descansar mesmo quando morrer? ».

    Aí começa o breakthrough de elaboração, it goes like this: « Nossa, será que eu tenho inveja dos zumbis que eu estudo? Porque eles estão descansando, sem deixar de viver? Ou vivendo sem deixar de descansar? ». Mas aí outro movimento me acessou (ou foi acessado?): « A minha vida toda foi morte. Meu tio, que morreu um ano antes de eu nascer e cujo espírito, minha mãe jura de pé juntos, me cuidava quando criança. Meu pai, que quis me abortar, mesmo sem consentimento da minha mãe. Meu pai (ele denovo), que ameaçava se matar com um tiro na cabeça na minha frente. Eu, adolescente neurodivergente não diagnosticada, sofrendo bullying e pensando todo dia em morrer. Minha avó, de quem ajudei a cuidar nos meses finais e vi definhando na minha frente. Meus clientes mortos por batidas, voltando bêbados da balada, onde eu havia ajudado a embebedá-los… »

    E, bom, talvez seja por isso que eu decidi estudar zumbis? Porque no fundo (e no vocabulário freudiano), eu sublimei toda essa morte e todos os meus pensamentos suicidas em uma pesquisa que me dá vontade de viver? Antes dos zumbis, eu não tinha planos a longo prazo, eu só fazia as coisas. Primeiro porque eu já estava na hora extra (já que não me matei quando era mais jovem) e segundo porque eu não tinha vontade de continuar vivendo. Hoje, os meus planos a curto-prazo existem para engendrar planos a médio prazo, que por sua vez engendram planos a longo/longuíssimo prazo.

    Eu sei que isso tudo é bem clichê: ter breakthrough terapêutico na cabine de privação sensorial, estudar morte pra ter vontade de viver, bla bla bla. E eu odeio isso, de verdade. O breakthrough não poderia ter acontecido 4h da manhã, comigo em pé, vestindo pijamas que jamais outro ser humano presenciará, comendo pão gelado com maionese vencida e coca cola zero quente? Não poderia ser que eu estudo zumbis, sei lá, porque eu já vi todos os filmes de zumbis existentes e queria falar de algo que conheço bem?

    Essa poderia ser a justificativa da minha dissertação, mas vai tentar fazer ozomi entender que pesquisa é, sim, autobiográfica.

  • SENÃO PIRATARIA, O QUÊ?

    Eu realmente gostaria de ter uma videoteca física, assim como tenho meus livros, dos quais gosto muito e consulto com uma regularidade maior do que consulto aqueles baixados das bibliotecas virtuais alternativas. Eu realmente queria.

    Mas eu não consigo. Primeiro porque a maioria dos DVDs físicos têm uma limitação regional de uso, ou seja, não posso comprá-los importados. Isso já reduz minhas opções em muitas milhares de vezes. Se contar que muitas vezes « consumo » títulos de difícil acesso até para países onde os filmes foram produzidos, calcule. Às vezes, nem nos meios alternativos consigo acesso aos filmes, e quando « internacionais », muitas vezes consigo os filmes, mas não as legendas.

    Isso se não forem computadas as diversas humilhações que uma pesquisadora como eu tem que passar para ter acesso ao seu material de trabalho: pornografia indesejada, propagandas de bets, de vpns, aumento peniano… pra conseguir um link que não terá nenhum seed. Daí, tentamos links diretos, download direto do streaming, se possível…

    Não é apenas um trabalho de consumo e um desejo de evitar comprar o original, é que simplesmente não há original a ser comprado! É um trabalho de curadoria e arquivamento! E aí, cultura deve ser limitada a esse ponto? Deve ser limitada a algum ponto? « Ah, mas filme de zumbi não é cultura! ». Não cabe nem a você, nem a mim decidir, não é?

    A questão é que o mercado alternativo está morrendo, para nossa indubitável tristeza. Serão centenas de milhares de filmes, que por não serem absorvidos por um streaming qualquer, serão totalmente esquecidos. E putz, já falei aqui como mesmo o pior filme do ponto de vista da qualidade cinematográfica tem, sim, algo a ser dito.

    Dito isso, piraters do meu Brasil, me dêem dicas, por favor. Mas não se exponham, mandem em stef.stett@proton.me.

  • ZUMBIS SIMBIONTES: MAIS UM CASO

    Eu gosto quando as coisas funcionam assim, meio na base da mágica. Eu estava me inteirando sobre filmes de zumbis que não estavam na minha lista (a curadoria dessa lista é um trabalho interminável!) e encontrei esse no Stremio: Redcon-1 (Chee Keong Cheung, 2018). No Letterboxd, reviews horríveis. Cinematografia ruim, atuação ruim, enredo ruim, etc… Bom, já explicitei aqui meu pensamento sobre filmes « ruins ».

    A felicidade de encontrar mais uma garotinha brilhante e corajosa e imune! E mais: com imunidade herdada, dessa vez do pai. A pequena Alicia Rowan (Jasmine Mitchell) junta-se a Ellie e Melanie no rol de zumbis conscientes. É uma coincidência que sejam todas garotinhas? Gosto de pensar que não.

    Esse filme ainda junta um outro feature: os zumbis são capazes de manter memórias da sua vida de vida, e rolam até uns flashbacks toscos. Isso gera momentos até engraçados de zumbis militarizados batalhando com golpes de artes marciais e não mordidas. Mas enfim, o Capitão Stanton, mesmo transformado, consegue lembrar que prometeu tutorar a garotinha.

    Junto com alguns sobreviventes, o novo zumbi garante a segurança de Alicia e morre nas mãos do seu superior hierárquico do exército. Stanton é o único homem negro do filme, vale lembrar. O filme acaba antes de sabermos o fim da garota, que eu sinceramente espero que não seja o mesmo que aquele planejado para Ellie e Melanie.

    Filme bom é bom demais, mas filme ruim também é bom demais!

  • SOBRE ZUMBIS E QUALIDADE CINEMATOGRÁFICA

    (ou porque o trabalho do crítico é diferente do trabalho do pesquisador)

    No último domingo, assisti a um dos mais recentes filmes de zumbis lançados, Zombie Town (2023). Achei que o filme foi muito produtivo, principalmente porque apresentou algumas novas nuances que me ajudaram a pensar ainda melhor a figura do zumbi. Minha cabeça fervilhava de ideias e um filme de uma hora e meia levou quase três para ser assistido, já que eu o pausava a cada 10 minutos para fazer alguma anotação mais longa ou desenvolver minimamente uma ideia. Nesse sentido, o filme foi ótimo para mim. Material para pesquisa!

    Quando abri o Letterboxd para registrar o filme, aproveitei para olhar as críticas, como sempre faço, pensando que alguém com certeza também apreciaria tais nuances que eu havia detectado no filme. Qual não foi a surpresa ao perceber que a nota era extremamente baixa e a maior parte das críticas eram negativas. Fui pesquisar e o filme tem 1.8/5 no Letterboxd, 3.8/10 no IMDb e bem… eu nunca entendo as pontuações do Rotten Tomatoes. Isso me levou a pensar.

    Porque a minha pesquisa sofreu uma mudança de rumo – enquanto na monografia e anteriormente, eu falava mais sobre os filmes e agora, na dissertação, vou falar mais do imaginário coletivo da figura do zumbi –, eu não sinto a necessidade de julgar se o filme é bom: simplesmente é ou não é relevante para mim. O que me importa é que ele represente uma interpretação mais nichada dos zumbis, uma interpretação única, um plot diferente.

    Por exemplo: quando vi que o filme tinha um cinema como cenário predominante, fiquei com medo do filme ser parecido com Dèmoni I e II. Isso, eu percebo agora, é mais importante para o desenvolvimento da minha pesquisa do que perceber qualidade de montagem, fotografia, direção e outros aspectos como esses.

    Isso me coloca numa posição mais isolada do que a que eu já estou: no cenário internacional dos estudos de zumbis, há pouca ou quase nenhuma pessoa na grande área da Filosofia. No cenário nacional, eu devo ser a única senão uma das únicas pessoas que fala exclusivamente de zumbis. Com o pessoal do Cinema também não interajo muito por essas diferenças que tinham passado despercebidas até então. Mas agora tudo faz sentido. Muito cinéfila para a Filosofia, muito filósofa para o Cinema.

    Mas isso não é uma reclamação, apenas uma constatação sobre a natureza da minha pesquisa e do meu trabalho, que, ouso dizer, é única. O importante é tentar fazer um bom trabalho apesar de ambas as áreas – Filosofia e Cinema – me olharem meio feio.

    Como eu sempre digo: segue a pesquisa!