Stefany S. Stettler

doutoranda em Metafísica (UnB), mestra em Filosofia (PUCSP), especialista em Linguagem Cinematográfica e Audiovisual, Tanatologia, Imunologia e Microbiologia, bacharela e licenciada em Filosofia (UFPR)

Escrevo isso com ódio no coração de ter que tirar novamente o Novum Organum do Francis Bacon da prateleira, mas vou tentar fazer ser por um bom motivo. Lá no aforismo 52 do Livro II, Bacon diz assim:

« Pelo pecado o homem perdeu a inocência e o domínio das criaturas. Ambas as perdas podem ser reparadas, mesmo que em parte, ainda nesta vida ».

Reparar o domínio humano sobre todos os seres por meio da ciência. Pode se dizer que esse é o projeto baconiano por excelência. Pode se dizer também que é um projeto que foi extremamente bem sucedido, não é à toa que a humanidade se tornou uma força geológica nesta época que denominamos, não sem discussões, Antropoceno.

Essa questão do domínio do mundo é tratada em diversas mídias de zumbis, com razão. De um lado, a nossa queridinha zumbi Melanie, quase no final de The Girl with All the Gifts (2016), fala:

« Não acabou. O mundo apenas não pertence mais a vocês ».

Em Against the Dark (2009), uma das personagens fala em determinado momento que

« Significa que somos os monstros agora. Esse mundo não é mais nosso ».

É bem certo que há uma nuance entre posse e domínio, e os termos não são completamente equivalentes. Mas se o mundo não pertence mais aos humanos, algo reconhecido entre sobreviventes e zumbis, de quem é o mundo? E mais, o mundo precisa ter um « dono »?

Por muito tempo eu achei que a resposta para a primeira questão fosse « a natureza ». O mundo volta a ser « da » natureza no caso de um apocalipse zumbi. Mas outra questão importante a ser posta é: de qual mundo estamos falando? Há vários. E, considerando a nuance que mencionei acima, ter o domínio do(s) mundo(s) significa ter a posse desse(s) mundo(s)?

Aí que eu acho que o projeto baconiano talvez não tenha sido tão bem sucedido assim. A humanidade conseguiu o domínio da natureza, mas a posse (mais ou menos) equivalente nunca foi e jamais poderia ter sido conquistada. A própria noção de « propriedade », sustentada pelos pensadores dessa mesma época e que se alastrou até o capitalismo bem-formado que conhecemos, não se sustenta.

Nesse sentido, os zumbis são uma força an-árquica, anti-capitalista, preparada para destronar todo e qualquer dono único de uma propriedade qualquer. Land of the Dead (2005) é outra evidência nesse caminho.

Enfim, só pensando pensamentos. Nunca trago nada muito concreto pra cá mas escrever aqui me ajuda a pensar.

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